"- Descobri que não era um caso de amor, O salgueiro estava seco, morto. A primavera tinha assassinado ele. Não era um caso de amor. Ela estrangulou, vampirizou, assassinou ele. Aquela escuridão de dentro era a fraqueza dele, o fracasso dele, a morte dele. Você está me entendendo? Eu vou falar bem devagar para que você compreenda: aquela loucura de flores e
cores do lado de fora era a vitória dela. A vitória da vaidade dela às custas da vida dele. Uma vitória louca, você está ouvindo? Como se tivesse frio, ela encolheu-se violentamente. Sem querer, olhou para o lado e viu o relógio. Eram cinco e quinze da manhã. Ele repetiu:
- Uma vitória louca, uma vitória doente. Não era amor. Aquilo era solidão e loucura, podridão e morte. Não era um caso de amor. Amor não tem nada a ver com isso. Ela era uma parasita. Ela o matou porque era uma parasita. Porque não conseguia viver sozinha. Ela o sugou como um vampiro, até a última gota, para que pudesse exibir ao mundo aquelas flores roxas e amarelas. Aquelas flores imundas. Aquelas flores nojentas. Amor não mata. Não destrói, não é assim. Aquilo era outra coisa. Aquilo é ódio. Muito calma e um tanto casual, acendendo outro cigarro, afastando uma mecha de cabelos da testa um pouco fria, um pouco suada, mas nada de grave, a mulher ergueu levemente a sobrancelha esquerda, num gesto muito seu, um gesto cotidiano, habitual e sem novidades, que usava muito ao fazer compras, indagando preços, ao estender uma xícara de chá, ao dar ordens à empregada, ao girar o botão ligando o televisor, e perguntou absolutamente tranqüila, absolutamente controlada, absolutamente segura de si:
- Você está querendo dizer que acha que eu o destruí? Depositando com extremo cuidado a caixinha de música, ele disse alguma coisa em voz tão baixa que ela não chegou a entender.
- Como? Não ouviu a resposta. As duas mãos grandes e fortes do homem fecharam-se rápidas e precisas em volta da garganta dela. A mulher estendeu a perna como se chutasse algo no ar, derrubando a caixinha no chão. O dia estava quase claro quando uma nota de corda arrebentada ficou ressoando aguda no ar. Entre o som e a luz, ela ainda conseguiu ver o sorriso iluminado do homem, e se pudesse falar diria então que era exatamente: como se estivesse com a cabeça inteira dentro d’água e alguém começasse a tocar realejo na beira do rio."
Caio Fernando de Abreu, Morangos Mofados. "Caixinha de Música".
terça-feira, 31 de março de 2015
segunda-feira, 30 de março de 2015
Soco em Ponta de Faca
- Oi Bá.
- Oi. - porque ela insiste em me chamar pelo meu apelido? Não quero mais essa pretensa intimidade para iniciar uma conversa prática e interesseira. Eu não preciso de nada que você tenha, apenas da sua boa vontade para me escutar.
Internamente, só queria que essa tortura acabasse. Essa mesma, de tentar extinguir uma emoção selvagem, um amor que não se pode sufocar, implacável, tão íntimo e sensível de se manipular de forma 100% consciente e reflexiva, verborrágico, beirando o eufórico. E por causa disso me afastei de você e todo o seu perímetro. Porque eu sou assim mesmo. As coisas afloram em mim como catarses que eu não consigo sufocar e disso você já teve provas. Ainda não sei conviver sem as explosões.
Mas nas ruas, o tratamento é tão impessoais, fugas e sei lá. Difícil... Qual é o problema!? Você precisa de sofrimento alheio para abrir o próprio caminho no seu mundo hermético? De provas de amor desesperadas? Eu sei, algumas pessoas alimentam a alma com vingança. É o que você quis dizer com "não ter sido uma boa companheira?" Por que você se arrependeu de abraçar uma relação livre comigo em que enfrentar o próprio ciume foi insuportável? Eu esperava que você não lamentasse e se esforçasse por mim um pouco mais, assim como eu me esforcei para controlar meus impulsos de raiva, que acabavam refletindo em você, naquele contexto doméstico e codependente. Assim como eu fui compreensiva e dei mais atenção a você para que não se sentisse preterida. Mas se eu não fui a pessoa mais paciente, tampouco foi você, em questão de se fechar completamente e me ignorar. É terrível ser tratada com indiferença.
Eu estava quieta, me sentindo prática, independente, criativa, bonita. Eu só queria que ela sumisse do meu campo de visão. Que o menosprezo dela não se materializasse como uma entidade sobre a minha auto-estima frágil. Que ela não assombrasse o meu inconsciente e as divagações a luz do dia, que assaltam a minha mente, sem que eu permita.
- To meio que ocupada com alguns trabalhos, meio que comprometida com alguns atividades, meio que fudida com alguma coisa, como sempre, cê sabe... - meio que me curando de uma decepção, meio que achando fugas para não pensar na minha facilidade de me entregar e na sua facilidade em se esquivar e correr na direção oposta...
- Oi. - porque ela insiste em me chamar pelo meu apelido? Não quero mais essa pretensa intimidade para iniciar uma conversa prática e interesseira. Eu não preciso de nada que você tenha, apenas da sua boa vontade para me escutar.
Internamente, só queria que essa tortura acabasse. Essa mesma, de tentar extinguir uma emoção selvagem, um amor que não se pode sufocar, implacável, tão íntimo e sensível de se manipular de forma 100% consciente e reflexiva, verborrágico, beirando o eufórico. E por causa disso me afastei de você e todo o seu perímetro. Porque eu sou assim mesmo. As coisas afloram em mim como catarses que eu não consigo sufocar e disso você já teve provas. Ainda não sei conviver sem as explosões.
Mas nas ruas, o tratamento é tão impessoais, fugas e sei lá. Difícil... Qual é o problema!? Você precisa de sofrimento alheio para abrir o próprio caminho no seu mundo hermético? De provas de amor desesperadas? Eu sei, algumas pessoas alimentam a alma com vingança. É o que você quis dizer com "não ter sido uma boa companheira?" Por que você se arrependeu de abraçar uma relação livre comigo em que enfrentar o próprio ciume foi insuportável? Eu esperava que você não lamentasse e se esforçasse por mim um pouco mais, assim como eu me esforcei para controlar meus impulsos de raiva, que acabavam refletindo em você, naquele contexto doméstico e codependente. Assim como eu fui compreensiva e dei mais atenção a você para que não se sentisse preterida. Mas se eu não fui a pessoa mais paciente, tampouco foi você, em questão de se fechar completamente e me ignorar. É terrível ser tratada com indiferença.
Eu estava quieta, me sentindo prática, independente, criativa, bonita. Eu só queria que ela sumisse do meu campo de visão. Que o menosprezo dela não se materializasse como uma entidade sobre a minha auto-estima frágil. Que ela não assombrasse o meu inconsciente e as divagações a luz do dia, que assaltam a minha mente, sem que eu permita.
- To meio que ocupada com alguns trabalhos, meio que comprometida com alguns atividades, meio que fudida com alguma coisa, como sempre, cê sabe... - meio que me curando de uma decepção, meio que achando fugas para não pensar na minha facilidade de me entregar e na sua facilidade em se esquivar e correr na direção oposta...
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